Tecnotenentismo
Em Defesa da Hiperstição da Minha Geração
Tudo começou com um tweet jocoso, etilicamente inspirado, e acabou ganhando tração na internet graças a uma turma boa do MBL. De boa vontade, muitos acataram o tecnotenentismo como um corpo ideológico coeso, ou então, um nome para finalmente consolidar as propostas da Missão para o Brasil.
Essa não era a minha intenção inicial. O tecnotenentismo foi uma previsão, ou melhor, uma hiperstição - uma ideia que se torna real conforme as pessoas acreditam mais e mais nela.
Isso não desqualifica a turma que rapidamente abraçou o termo, muito pelo contrário. A adesão rápida ao conceito torna todo o nosso horizonte de eventos mais interessante, justamente porque mais pessoas pressentem que a República Brasileira passará em breve por um período de profundas reformas, mais uma vez.
Digo mais uma vez porque o desenvolvimento político da Nova República está convergindo para uma forma familiar na história brasileira, a República Velha.
Essa é uma conversa antiga que já ronda o debate no campo da esquerda já faz algum tempo, mas a constatação parece cada vez mais óbvia. É biologia, um caso notório de convergência evolutiva aplicada à política.
Explico melhor. Como podemos observar na natureza, todo animal que vive debaixo d’água é hidrodinâmico, não importa se é peixe ou mamífero. Isso acontece porque, para sobreviver na água, o animal precisa ter um formato que o permita nadar com eficiência, ou então não conseguirá se alimentar e estará vulnerável aos predadores do habitat. Por isso, por mais que os antepassados originais sejam muito diferentes, como na comparação entre as baleias e os baiacus, os bichos dos mares compartilham alguma semelhança fisionômica entre si.
Entretanto, o caso mais sinistro de convergência evolutiva pode ser observado num fenômeno chamado “carcinização”, o fenômeno que faz com que crustáceos de todo tipo acabem estranhamente ficando cada vez mais parecidos com caranguejos… lentamente o processo está revelando que a forma superior para artrópodes do mundo todo.
Curiosamente, o Brasil também passa por carcinização, mas no pior sentido possível. Afinal, caranguejos são associados aos tumores no corpo humano desde a Grécia Antiga, e no caso do Brasil esse paralelo é conveniente, já que trataremos dos vícios espontâneos que acometem os filhos deste solo dos quais a Pátria é mãe gentil.
Além das curiosidades biológicas, a hipótese é que uma soma de fatores culturais, geográficos, históricos, sociológicos opera dentro da sociedade brasileira de forma que os sistemas políticos implementados sempre acabam convergindo ciclicamente para elementos “república-velhescos”.
Faço uso do neologismo para representar o ápice da política nacional na sua forma não representativa, pervertida, desonesta e oligárquica. Fato é que esses sinais, ou essa forma, puderam ser observados muito antes e muito depois do princípio do período republicano.
Atribuir essas características a algo endógeno do Brasil não é uma análise arrojada, muito pelo contrário. É como afirmar que um sistema democrático liberal dificilmente surgiria espontaneamente no Afeganistão, ou então que a Noruega dificilmente se converteria numa teocracia fundamentalista por escolha própria.
Da mesma forma, no caso brasileiro, podemos observar que a forma oligárquica, ruralista, corrupta é, em alguma medida, espontânea. Afinal, estamos acostumados a observar os sintomas de sempre: a política clientelista a nível micro e a crise de representatividade a nível macro. Através de incentivos pouco republicanos, o eleitor se sente inclinado a renunciar à sua consciência, abrindo oportunidade para que o político tenha a oportunidade de misturar com prazer o que é público ou privado.
Esse é o Brasil e esse é o sistema que decorre da cultura geral, de forma que qualquer sistema político está sujeito a absorver essas características de forma espontânea. Entretanto, não é como se fôssemos eternos reféns dos nossos “maus hábitos”.
Esse conjunto de práticas, as quais não pretendo investigar a fundo neste texto, opera como uma goteira que desgasta sem pressa uma pedra. A pedra é a teoria política implementada, seja ela qual for, e a goteira, bom, é a nossa natureza pervertida.
Não pretendo investigar a fundo a patologia nacional neste texto e não descarto, inclusive, que na nossa imperfeição também tenhamos alguma fortaleza, nem que seja a notável estabilidade nacional.
Entretanto, é trivial observar a constante revisão da matriz política brasileira. Do Império, para a República (ora Velha, ora da Espada), para Vargas, para a Ditadura Militar, para então vivenciarmos a República Nova.
É como um relógio cuco que, nas cercanias dos quarenta anos de ordem política, mostra o passarinho de madeira para sinalizar que chegou o momento de mudar.
Por isso, estamos fadados a nos reposicionar, corrigir a trajetória e os alicerces do poder, ou então perecer. Claro, a mudança brasileira nunca é radical, e é comum encontrarmos pontos de rompimento e de continuidade entre todas as etapas, mas ainda assim, mudamos.
E por que mudamos? E mais ainda, quem nos muda?
Mudamos sobretudo porque precisamos e, vez ou outra, temos a oportunidade para tal. Na história, a única certeza é de que todas as coisas decairão e a ordem política no Brasil não é exceção.
Um novo sistema de valores ascende e rapidamente passa pelo mesmo processo de convergência evolutiva, os valores nacionais se exacerbam ao mesmo passo em que domesticam a política. Em 40 anos as elites estabelecidas estão perfeitamente acomodadas, gordas e confortáveis, e também prontas para ser forçadamente “oxigenadas”.
É o velho dilema sobre Leões e Raposas na política, como Maquiavel e Pareto trataram. Talvez em termos tropicais, sejam Onças e Capivaras, ou coisa parecida.
O diagnóstico frio é que os tais valores brasileiros, ainda que sejam passíveis de admiração em algum nível, são incompatíveis com as estruturas modernas de governança.
Na nossa terra é pedir demais que o governo seja tripartido, que os mandatos sejam transparentes e representativos, que a coisa pública seja apartada dos assuntos privados da família, e que haja incentivo ao contraditório no debate público. Infelizmente.
Os sistemas políticos conseguem ser refundados, reordenados sobre novas premissas, mas não conseguem se manter incólumes com o passar das décadas. É como a imagem de um edifício abandonado que sem nenhuma manutenção acaba sendo tomado pela floresta verdejante mais uma vez.
Fato é que esse processo, assim como na metáfora, macula os alicerces da construção, colocando em risco os residentes - esse é o momento em que a mudança passa a ser considerada necessária.
Observamos na história brasileira que, diante da ocasião, o Brasil também se mostrou capaz de criar espontaneamente uma vanguarda de homens jovens urbanos, muitas vezes egressos das forças armadas, com uma alternativa para o país.
Destaco os dois exemplos mais emblemáticos, um fracassado (em seu tempo) e outro vencedor: a Inconfidência Mineira e o Tenentismo.
O primeiro, ainda que com algum anacronismo, reúne todas as características mencionadas. E ressalto, o seu mártir, Joaquim José da Silva Xavier era um Alferes, cargo do exército português à época que corresponde à posição contemporânea do Tenente… um prenúncio.
Tiradentes, que era o mais humilde de origem entre os conspiradores, participou de um movimento extremamente vanguardista. Seus amigos teriam deflagrado a segunda revolução liberal em todas as Américas, pouco depois dos Estados Unidos e antes mesmo da Revolução Francesa!
Era algo inimaginável para a sociedade profundamente interiorana e marcada pela escravidão, como nas Minas Gerais do Século XVIII. De qualquer forma, os Inconfidentes, jovens, militares com formação no exterior, importaram o que havia de mais moderno na teoria política para uma das grandes metrópoles brasileiras da época.
No coração da indústria aurífera, os impostos sobre a produção não paravam de aumentar e as poucas manufaturas proibidas e sabotadas pela Coroa Portuguesa em 1785. Era a metrópole, em conluio com a administração local, agindo contra a modernização do Brasil.
Os Inconfidentes foram ineficazes, e então foram traídos e esquecidos por cem anos, até que as suas ideias finalmente triunfaram com a Proclamação da República em 1889. Então, foram finalmente lembrados e honrados, só para assistir à República ir de mal a pior.
No contexto republicano, passado o fervor liberal dos anos da Proclamação, a geração de “bucheiros” que sucedeu o Imperador também se mostrou inapta a modernizar o Brasil. Fora os surtos de industrialização propiciados pela Primeira Guerra Mundial, o paradigma socioeconômico pouco se alterou.
Em algum sentido, a Proclamação da República, acabou se provando um movimento conservador, mesmo que com a faceta liberal. Diante de um grupamento completamente novo de valores e aspirações, os anos da república se provaram mais do mesmo, ou mais ainda, um avanço na hegemonia do café paulista como locomotiva e propósito da nação.
Naquele contexto, e diante de mais um ciclo de convergência evolutiva, um tenente, mais uma vez, encarnou as ambições de uma visão nova e mais alta do que o Brasil poderia ser.
O Levante do Forte de Copacabana foi iniciado em função da prisão do Marechal Hermes da Fonseca, entretanto, é difícil sustentar que, ao fim do evento, ainda se tratasse de uma quartelada em resposta à perda de influência política do Exército.
Afinal, as visões suicidas do Tenente Siqueira Campos só podem ser compreendidas à luz de um desejo latente por uma política representativa/moderna em sentido pleno que já estava sendo embrionado no país.
As ambições dos tenentistas nunca estiveram explícitas em papel, e o movimento nunca se manifestou propriamente como ideológico-partidário. Era como um espírito que pairava sobre o Brasil dos anos 20/30 e que acabou impactando profundamente o futuro do país.
Em alguma medida, os Tenentes estavam em sinergia com alterações políticas que tomavam conta do mundo todo. Era um momento de crítica ao modelo da democracia liberal, com repercussões no mundo todo e o Brasil esteve novamente na vanguarda.
Então, mais uma vez, por conta de um pequeno grupo de homens jovens e idealistas, o Brasil mudou de rota definitivamente.
O ponto do Tecnotenentismo é exatamente esse. Existe alguma ciclicidade nesses movimentos, ainda que eles nem sempre expliquem por conta própria o arco histórico da política nacional.
As mudanças são mais frequentes que essas vanguardas, mas seu impacto é inegável. Os Inconfidentes moldaram boa parte do Século XIX no Brasil e os Tenentes, por sua vez, o Século XX.
No segundo caso, a influência é muito mais direta. Muitos Tenentes dos anos 20 seguiram a vida pública, e nas mais diversas posições do espectro político. E apesar da lacuna no conteúdo programático do tenentismo, eles assumiram posições de liderança em decorrência da autoridade moral que obtiveram, especialmente entre o eleitorado urbano.
O ponto central da tese do Tecnotenentismo é exatamente esse. Diante das condições político-materiais do nosso tempo, há de surgir um movimento análogo. Algo que seja jovem, urbano, e radicalmente oposto às oligarquias nacionais que viciam a política brasileira.
Resta então justificar a adição do prefixo “tecno”. Sobre isso, é uma aposta acima de tudo. O choque dessas jovens vanguardas na história brasileira é fundamentalmente assimétrico, e esses novos Tenentes vão precisar de técnicas que os permitam multiplicar o seu poder.
Além disso, é conveniente que esse sentimento se faça latente logo neste novo momento da política internacional. Novamente questionamos preceitos fundamentais da democracia liberal e novamente temos a necessidade latente de nos adaptarmos ao mundo novo, dessa vez da IA e da revolução digital.
E esses são só alguns dos muitos novos temas para os quais o Estado Moderno do Século XX está despreparado para lidar. O problema é que, para benefício das oligarquias nacionais, o horizonte imaginativo da política nunca esteve tão pobre.
Cada vez mais a disputa pela hegemonia global está se consolidando no debate sobre a entropia que será desencadeada por esses ganhos técnicos exponenciais e, honestamente, ninguém sabe como se preparar 100% para o que está por vir.
Desemprego em massa? Blockchain? Autômatos em zonas de guerra? Pós-abundância? Não temos respostas porque não há homem vivo à altura do desafio de consolidar a forma de governo do futuro, afinal, a pretensão de governos políticos atemporais e axiomáticos já se desfez na filosofia.
De qualquer forma, é perceptível que cada vez mais a disputa pelo mundo se reorienta no eixo dos debates entre tradição e tecnologia, criando uma oportunidade singular para a ascensão de mais uma vanguarda nacional. Um pequeno grupo político que, posicionado em defesa da supremacia da técnica, possa trazer um novo século para o Brasil mais uma vez. Teremos o que é preciso? Honraremos aqueles que tombaram por nós outrora?






A vida é bela, e o futuro é glorioso!
Tecnopolítica pill.
WOW, que notificação absurda é essa que chegou no meu e-mail.